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Certo morador de um bairro distante vai diariamente a uma praça e, munido de uma pazinha e de um saco de lixo,
recolhe as folhas caídas, bitucas de cigarros, cascas de banana, papéis amassados, etc. que
frequentadores jogam no chão.
Passam-se semanas, meses, anos, e ele continua nessa inglória tarefa... pois a sujeira sempre se renova.
Mas ele continua, dia após dia. Seus cabelos, já bem grisalhos no início, vão branqueando de vez.
Alguns dos frequentadores mais antigos olham, admirados, para aquele velho com que já se acostumaram, sempre discreto e silencioso,
a limpar o chão diariamente. Alguns passam a ajuda-lo. Em pouco tempo, porém, já estão reclamando da insensibilidade
dos usuários.
E dizem:
— Não vale a pena. Por quê o senhor continua fazendo isso, sabendo que é em vão?
O trabalho individual é inútil, não vai modificar as pessoas.
Isso tem que ser política da Prefeitura; deveria ser feita uma campanha de educação ambiental pela TV, para transformar a mentalidade dos frequentadores.
E deveria haver punição; só com multas as pessoas aprendem.
E logo abandonam o serviço.
Mas ele continua, embora já lhe custe abaixar-se e recolher a quota diária de lixo...
Já são quase cinco anos de trabalho.
Aos poucos, porém, formou-se um pequeno grupo que se junta a ele, ajudando ou se revezando na tarefa.
O grupo se estabiliza. Já estão juntos há alguns meses.
Agora eles conversam ao final da tarefa diária, e certa tarde alguns insistiram com ele para que explicasse por que iniciou tudo aquilo.
— “Só consigo imaginar que o senhor é uma pessoa muito evoluída para este bairro ignaro”, diz um deles. “é a única explicação que encontro”, disse o mais jovem de seus colaboradores.
— "Não é isso”, responde o velho — “não sou diferente deles. Ao contrário, o cuidado com as coisas
e a atenção ao trabalho dos outros nunca foi o meu forte. Mas agora, enquanto faço esse trabalho, aprendo sobre mim mesmo".
— “Como assim? Aprende o quê?”
— "Quando mudei para este bairro, tinha acabado de me aposentar. Meu salário caíra a menos da metade e a vida se tornou mais difícil. Algum tempo depois, minha esposa faleceu. Minha vida desmoronou, e eu me sentia revoltado com tudo.
Quando me vi sozinho na casa vazia, porém, tive que mudar meus hábitos, pois não sabia como cuidar dela. Só então reparei que, durante nossa convivência de vinte e cinco anos, nunca prestara atenção especial em nossa casa sempre muito limpa, cheirosa, arrumada, cheia de plantas e flores. Como ela nunca reclamou de nada, eu achava que era obrigação dela fazer tudo aquilo, e jamais agradeci por coisa alguma. Arrependi-me amargamente, mas já era tarde.
Estava muito triste comigo mesmo, sentia-me culpado e não sabia o que fazer."
"Passei um bom tempo assim. Foi aí que conversei com um amigo, praticante de Zen, que me aconselhou a prestar serviço voluntário pelo menos por um ano, trabalhando com a maior boa vontade possível e, ao mesmo tempo, observando a mim mesmo, sem julgar, apenas ficando consciente de minhas reações."
"Foi assim que tudo começou”.
— "Entendo", responde o jovem — "Então, o senhor estava se redimindo de seus erros. Mas, sobre aprender sobre si mesmo, o que significa?
Como pode aprender algo enquanto faz um serviço tão pouco gratificante e ainda sem ganhar nada?"
— "Sim, é verdade que, no início, eu fazia a tarefa para me penitenciar por meus erros passados. Mas só no início.
Tentei seguir as instruções do meu amigo, o que consegui por um breve período.
Porém, logo me vi culpando as pessoas que poluíam o ambiente. Dominado pelo remorso, eu não tinha amor ao trabalho, que fazia apenas para me sentir melhor.
Mas eu me comparava com eles e me sentia superior, mais disciplinado e melhor cidadão.
O
não julgamento
que meu amigo falou era simplesmente impossível.
Cada vez que eu limpava algo e vinha alguém sujar, eu o condenava e sentia raiva.
Achava uma desconsideração comigo.
Mas então eu me lembrava de mim mesmo, de quão desatento eu havia sido com o trabalho de minha esposa, e a raiva virava desgosto.
Enfim, os meses foram passando, e assim se passou o primeiro ano.
Findo esse período, fui falar com o amigo que me dera tal incumbência, dizendo-lhe da inutilidade de tudo aquilo”.
— "Você ainda está emocionalmente conflagrado", respondeu — "seu aprendizado é insuficiente. Fique mais um ano na praça, fazendo o mesmo trabalho, sem julgar ninguém".
— "Continuei, mas nada mudava, o que era frustrante, pois eu imaginava que haveria de me sentir melhor fazendo um trabalho voluntário. Mas os dias passavam e eu não me sentia feliz.
Para piorar, de vez em quando alguns rapazes me viam trabalhando e jogavam pontas de cigarro no chão; acho que faziam de propósito, para se divertirem.
De algum modo, eu parecia atrair antipatia e provocações.
Além disso, penso que os frequentadores achavam que eu ganhava alguma ajuda de custo, pois jamais recebi um elogio.
Sentia-me injustiçado. Mas então eu lembrava que jamais elogiara minha esposa, e as lágrimas me vinham aos olhos.
Pensei muito em desistir, mas completei meu segundo ano na praça. Depois, voltei ao meu amigo Zen e contei como me sentia".
— "Faça o trabalho pelo trabalho, não para obter recompensa por ele, nem mesmo interior", aconselhou.
"Como eu o respeitava muito, resolvi fazer a última tentativa. Coloquei em prática, a duras penas, a sugestão dele e passei a fazer meu trabalho sem me incomodar com mais nada.
A certa altura, uma coisa boa aconteceu: notei que tinha parado de me condenar!
Essa foi a primeira mudança que percebi em mim.
Foi uma bênção, pois logo parei também de condenar meus semelhantes,
percebendo que eu era como eles, apenas tive oportunidade e condições de mudar — e eles não.
Essa percepção me levou a vê-los com mais simpatia e, como que por encanto, a atitude deles comigo também mudou. E assim completei três anos na praça; sentia-me mais pacificado, mas meu espírito não estava limpo. Voltei ao meu amigo Zen e contei minha descoberta."
— "O mundo emocional de todos os seres humanos é o mesmo", disse ele;
"e é formado por uma infinidade de sementes de todos os tipos: medo, expectativa e decepção, alegria e dor, frustração e recompensa, heroísmo e covardia, simpatia e raiva, sementes de amor e ódio, de atos bons e maus, de escravidão às emoções e sensações físicas e também de libertação delas.
As diferenças decorrem de quais sementes serão suficientemente regadas em sua existência
para se manifestar plenamente, ou parcialmente.
Mas dependem também das propensões individuais de cada um, isto é,
daquilo que já trazem como tendências latentes."
E concluiu, dizendo:
— "Fique mais um ano e depois me conte como se sentiu".
"Obedeci e parti para o quarto ano de trabalho na praça. A partir de então, passei a trabalhar com mais boa vontade.
Mas eu ainda tinha desejo de recompensa: achava que, com o tempo, eu seria reconhecido por todos.
Mas nunca houve reconhecimento algum, o que me frustrava.
Imaginava também poder mudar as pessoas pelo exemplo, mas nada disso aconteceu.
Percebi então que ainda estava trabalhando por interesse próprio, embora mais sutil.
Notei que estava me familiarizando como aspectos antigos de mim mesmo, mas que passavam despercebidos.
Lembrei que meu amigo dissera para não fazer julgamentos, mas percebi
que isso somente é possível se houver compaixão — não apenas por mim mesmo, mas por todos.
Quando sentia isso, procurava fazer cada vez melhor meu trabalho.
Foi por essa ocasião que uma senhora com seu cachorro me disse:
— "Confesso que antes nem sempre limpava as fezes do Tobby, mas ao vê-lo limpar a praça
com tanto carinho, agora recolho-as imediatamente nos saquinhos que trago toda vez que saio com ele."
Ouvi isso com grande felicidade, pois essa mudança de atitude trazia em seu bojo
simpatia, boa vontade e também reconhecimento por aquele trabalho que me parecera tão inútil.
Fiquei mais animado. Nessa ocasião me veio a inspiração de cultivar um pequeno jardim num cantinho da praça.
Era uma alegria quando algumas flores nasciam. Aí as coisas começaram a mudar: algumas pessoas começaram a trazer mudas e plantar no jardim, e outras começaram a ajudar na limpeza. Assim completei quatro anos de voluntariado. Voltei então a meu amigo Zen, contando-lhe últimos os acontecimentos e como me sentia entusiasmado".
— "Você aprendeu uma coisa importante", respondeu —
"Enquanto houver desejo de recompensa, seu espírito estará amarrado ao tempo.
E amarrar-se ao tempo é sair do presente e flutuar no campo das incertezas.
E enquanto houver desejo de mudar as pessoas, você não saberá o que é o amor, pois este aceita todos como são.
Sem amor não pode haver compreensão nem empatia genuína.
Agora, finalmente, pode parar seu trabalho voluntário", completou.
"Mas dessa vez não o obedeci e resolvi completar cinco anos de voluntariado.
Um grupo estável de colaboradores se formara no final do ano anterior, e agora dividíamos as tarefas.
O que veio em boa hora, pois uma dor reumática passou a me incomodar e eu já não conseguia trabalhar como antes.
Fizemos amizade, e cuidar da praça não é mais uma penitência: é uma alegria.
Todo dia eu chego em casa e faço pequenos poemas onde expresso minha gratidão, pois
sinto meu espírito limpo."
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